quinta-feira, setembro 10, 2026
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“A aposta do bem e a aposta do mal”

Nos últimos meses, o Brasil finalmente descobriu a origem de praticamente todos os seus problemas econômicos. Não é a taxa de juros. Não é o endividamento crônico das famílias. Não é o cartão de crédito rotativo. Não é o custo da alimentação, da moradia, da energia ou dos medicamentos. Não é a falta de educação financeira. Não é nem mesmo aquela velha tradição brasileira de gastar hoje o dinheiro que talvez apareça amanhã.

São as Bets. Pronto. Mistério resolvido.

Candidatos à Presidência, políticos que até ontem possivelmente não saberiam explicar a diferença entre RTP, GGR e impedimento de jogo, autoexclusão, celebridades convertidas subitamente em especialistas em economia familiar e uma parcela da sociedade encontraram um vilão perfeito: a aposta esportiva e os jogos on-line, a “Bet”. A palavra, de preferência em inglês, ajuda bastante. Soa mais perigosa.

E assim surgiu uma narrativa irresistivelmente simples: o brasileiro aposta, perde dinheiro, deixa de comprar no comércio, destrói o orçamento familiar e, aparentemente, ameaça sozinho a economia nacional. Se proibirmos as bets, portanto, talvez os brasileiros passem imediatamente a poupar, investir e ler relatórios do Banco Central antes do café da manhã.

Seria maravilhoso. Existe apenas um pequeno inconveniente nessa tese, ou melhor: alguns bilhões de inconvenientes.

Quando o bilhete é público, a discussão muda de tom

O Brasil convive há décadas, de maneira absolutamente normal e institucionalizada, com os jogos da Loterias CAIXA: Mega-Sena, Lotofácil, Quina, Dupla Sena, Lotomania, Timemania, Dia de Sorte, Super Sete e Loteria Federal. E não há nada de errado em reconhecer isso. As Loterias da CAIXA são legais, tradicionais, reguladas e possuem importante papel no financiamento de programas públicos.

Esse não é o problema. O problema é outro: como pode o ato de apostar ser apresentado como uma ameaça à família brasileira em um contexto e como uma atividade perfeitamente legítima em outro?

Em 2025, segundo a própria CAIXA, as loterias federais arrecadaram R$ 26,61 bilhões. Desse total, R$ 13,2 bilhões  foram destinados a programas sociais, incluindo seguridade, educação, esporte, cultura, saúde e segurança pública e  Imposto de Renda sobre premiações.

Ótimo. É justamente assim que deve ser. Uma atividade legal gera arrecadação, paga prêmios, financia políticas públicas e opera dentro de regras estabelecidas.

Mas é exatamente aí que mora a ironia. Durante décadas, milhões de brasileiros escolheram números, fizeram bolões, marcaram cartões e sonharam com o prêmio acumulado da Mega-Sena. Nunca houve uma crise nacional porque a avó comprou um bilhete da Lotofácil na terça-feira. Nunca ouvimos que o sujeito que marcou seis dezenas estava promovendo a destruição do varejo brasileiro. Ninguém apareceu na televisão exigindo saber quantos quilos de arroz deixaram de ser comprados porque alguém fez uma fezinha na casa lotérica.

Mas coloque a palavra BET na tela do celular e aparentemente entramos em outra dimensão moral. Se o cidadão aposta na Mega-Sena, ele está sonhando; se aposta em uma partida de futebol, está ameaçando a estrutura econômica da família brasileira. Se escolhe seis números, temos entretenimento; se escolhe o placar de um jogo, temos uma audiência no Congresso.

É uma transformação impressionante. O dinheiro, ao que parece, adquire características morais dependendo do recibo.

Antes de condenar, talvez seja interessante entender a conta

Parte do debate sobre apostas tornou-se especialmente criativa quando o assunto é matemática. Frequentemente aparecem números gigantescos sobre “quanto os brasileiros apostaram”. Bilhões, dezenas de bilhões, centenas de bilhões. Quanto maior, melhor a manchete — só existe um detalhe um pouco inconveniente: volume apostado não é a mesma coisa que dinheiro perdido pelo jogador.

Imagine alguém que deposita R$ 100. Aposta, recebe R$ 80 de volta, aposta novamente os mesmos R$ 80, depois R$ 60, depois R$ 40. Dependendo da forma como se contabilizam as apostas, aqueles mesmos R$ 100 podem aparecer várias vezes no chamado volume movimentado. Subitamente, uma nota de R$ 100 adquire a produtividade de uma pequena indústria.

Por isso, no setor regulado, uma medida fundamental é o GGR — Gross Gaming Revenue, que representa, de maneira simplificada, apostas menos prêmios pagos. No ano de 2025, o mercado regulado brasileiro registrou R$ 36,9 bilhões de GGR. Segundo dados oficiais da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, 25,2 milhões de brasileiros apostaram no período, com um tíquete médio de R$ 122,00 por mês por apostador.

Isso não significa que R$ 122,00 sejam pouco dinheiro. Para algumas famílias, é muito; para um jogador compulsivo, o problema pode ser muito maior, e a ludopatia deve ser tratada com absoluta seriedade. Mas também não significa que seja intelectualmente correto pegar o maior número disponível, chamá-lo de “dinheiro perdido pelas famílias” e construir uma política pública em torno dele.

A matemática não pode mudar de regra dependendo de quem está recebendo a aposta. Aliás, ninguém deveria dizer que os R$ 26,61 bilhões arrecadados pelas Loterias da CAIXA em 2025 simplesmente “desapareceram da economia”. Seria absurdo. Parte financiou destinações públicas, parte corresponde à operação da atividade.

Perfeito, então usemos a mesma lógica quando falarmos das Bets. Parece uma exigência revolucionária, mas atende pelo nome de coerência.

O dinheiro que saiu do comércio

Outro argumento muito utilizado afirma que as Bets estão retirando bilhões do varejo. A Confederação Nacional do Comércio chegou a estimar perdas superiores a R$ 142 bilhões em faturamento potencial do comércio em 2024 associadas às apostas. É um estudo que merece consideração, mas ele também levanta uma pergunta desconfortavelmente simples: todo dinheiro gasto em lazer não deixa de ser gasto em alguma outra coisa?

O dinheiro usado na Mega-Sena poderia comprar uma camisa; o ingresso para o futebol poderia pagar um jantar; a assinatura de cinco plataformas de streaming poderia comprar dois pares de sapatos; a cerveja do fim de semana poderia virar uma prestação do liquidificador. O restaurante compete com o supermercado, o cinema compete com o delivery, o show compete com a viagem, a viagem compete com o carro novo — e todos competem com a poupança.

Bem-vindos à economia de consumo. O fato de alguém gastar R$ 100 em uma atividade significa, inevitavelmente, que aqueles mesmos R$ 100 não serão gastos em outra. Isso se chama custo de oportunidade. Não foi inventado pelas Bets. E o real brasileiro continua demonstrando uma extraordinária incapacidade de distinguir se saiu da carteira para comprar uma pizza, um ingresso ou uma aposta. Ele simplesmente saiu.

Curiosamente, o Tesouro também participa do jogo

Existe mais uma parte dessa discussão que costuma aparecer em letras um pouco menores. As Bets autorizadas no Brasil são regulamentadas, licenciadas, tributadas e fiscalizadas. No ano de 2025, as empresas de apostas esportivas e jogos online devolveram para o governo e sociedade R$ 14,45 bilhões em 2025 (R$ 4,5 bilhões para os beneficiários legais da lei) e R$ 9,95 bilhões arrecadados pela Receita Federal, com tributos federais como o IRPJ, CSLL, PIS/Cofins e Contribuição Previdenciária). Além disso, o processo de autorização das empresas gerou bilhões em taxas regulatórias.

Ou seja, temos uma situação peculiar: o Estado estabelece as regras, o Estado concede as licenças, o Estado cobra as taxas, o Estado arrecada os impostos, o Estado determina as destinações sociais — e, paralelamente, setores da política descobrem que talvez a atividade que o próprio Estado acabou de organizar devesse simplesmente ser proibida.

É uma espécie de relacionamento complicado. Seria equivalente a abrir um restaurante, cobrar licença de funcionamento, vigilância sanitária, impostos e taxas e, alguns meses depois, organizar um movimento nacional contra jantar fora.

O problema existe. O exagero também

Nada disso significa negar os problemas associados às apostas. Ludopatia existe. Endividamento existe. Publicidade excessiva existe. Jogadores vulneráveis precisam de proteção. Menores não podem ter acesso. Beneficiários de determinados programas sociais exigem regras específicas. Operadores ilegais precisam ser combatidos. Limites, autoexclusão, monitoramento comportamental, publicidade responsável e mecanismos de jogo consciente são instrumentos absolutamente necessários. Essa é uma discussão séria.

O que não é sério é concluir que, porque uma parcela dos consumidores desenvolve comportamento destrutivo, a única solução racional seja eliminar todo o produto. Se seguíssemos essa lógica de maneira consistente, teríamos uma agenda legislativa bastante ocupada: cartão de crédito provoca endividamento, proibimos o cartão? Álcool provoca alcoolismo, proibimos todas as bebidas? Açúcar contribui para obesidade e diabetes, fechamos as confeitarias?

O problema não é reconhecer o dano. É acreditar que proibição e solução são sinônimos. Nunca foram.

A teoria brasileira da vodka

Suponha que o Brasil descubra amanhã que o alcoolismo se tornou uma emergência nacional. Políticos fazem discursos emocionados, especialistas aparecem nos programas de televisão, celebridades publicam vídeos indignados. Depois de meses de debate, surge finalmente a grande solução: vamos proibir a vodka.

Cerveja continua. Vinho continua. Cachaça continua. Uísque continua. Champanhe continua. Mas vodka acabou. Problema resolvido.

Naturalmente, nenhum alcoólatra migraria para outra bebida. Ele provavelmente diria: “Infelizmente proibiram minha vodka. A partir de amanhã farei Pilates.”

É evidente o absurdo. Porque o problema não é a vodka. É o consumo problemático de álcool.

Com apostas, a lógica deveria ser a mesma. Se existe jogo problemático, tratamos o jogo problemático. Se existe publicidade abusiva, regulamos a publicidade. Se existe crédito sendo utilizado indevidamente, bloqueamos o crédito. Se existem operadores ilegais, combatemos os ilegais. Se existem pessoas vulneráveis, criamos barreiras e mecanismos de proteção.

Mas proibir jogos online e apostas esportivas enquanto permanecem perfeitamente legítimas outras modalidades de apostas seria a versão brasileira de: “Vodka não pode. Cerveja está liberada.” E, para deixar claro, isso não é argumento contra a cerveja, muito menos contra a Loteria Federal. É argumento contra a lógica.

Talvez a aposta não seja o problema. Talvez seja a seletividade

As Loterias CAIXA demonstram, na realidade, algo importante: é possível uma sociedade conviver com jogos, regulamentá-los, fiscalizá-los, direcionar parte da arrecadação para finalidades públicas e reconhecer, simultaneamente, que a grande maioria das pessoas participa de maneira recreativa e que uma minoria necessita de proteção especial.

Portanto, as loterias públicas não deveriam ser usadas como alvo. Deveriam ser usadas como prova de conceito.

O Brasil aceita apostas há décadas. O que mudou não foi o princípio — mudaram a tecnologia, a velocidade, o acesso, o marketing e a escala. E esses elementos justificam uma regulação muito mais sofisticada. Não justificam uma súbita descoberta de que apostar é moralmente aceitável quando se escolhem seis números numa cartela, mas uma ameaça à civilização quando se escolhe o vencedor de uma partida.

A discussão correta, portanto, não deveria ser “Como acabar com as bets?”. Deveria ser: “Como construir um mercado de apostas regulado, responsável, fiscalizado e sustentável, que proteja os vulneráveis sem tratar milhões de adultos como incapazes de tomar suas próprias decisões?”

Essa pergunta dá mais trabalho. Exige números. Exige regulação. Exige tecnologia. Exige fiscalização. Exige tratamento para quem desenvolve dependência. Exige combater o mercado ilegal. Infelizmente, não cabe tão bem em um palanque. “Vamos acabar com as Bets!” produz um discurso muito melhor.

E no final…

Se alguém acredita sinceramente que toda aposta representa necessariamente dinheiro retirado da família e da economia, então terá de aplicar esse princípio a todas as modalidades. Inclusive às que existem há décadas.

Mas se reconhecemos, como o próprio Brasil reconhece há muito tempo, que jogos podem existir sob regulação, tributação, controle e responsabilidade social, então a discussão sobre as Bets precisa partir exatamente desse mesmo princípio.

Não se trata de defender aposta irresponsável. Muito menos de minimizar ludopatia. Trata-se de evitar uma conclusão curiosamente seletiva: o problema não pode depender de quem imprime o bilhete.

Um brasileiro que gasta dinheiro além de suas possibilidades apostando em futebol tem um problema. Um brasileiro que gasta dinheiro além de suas possibilidades na Mega-Sena também tem. Assim como alguém que compromete o orçamento familiar com álcool, cartão de crédito, compras ou qualquer outro comportamento compulsivo.

O que deve ser combatido é o abuso. Não uma palavra inglesa de três letras.

Porque proibir a vodka e manter a cerveja nunca resolveu o alcoolismo. E proibir uma modalidade de aposta enquanto preservamos outras dificilmente resolverá o jogo problemático.

Pode, contudo, produzir excelentes discursos. E em ano eleitoral, talvez essa seja justamente a aposta com maior probabilidade de retorno.

Artigo de Magno José, publicado no editorial do portal BNLData.

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