Dados globais e nacionais mostram queda recorde no aprendizado; especialistas apontam a “epidemia de distração” das redes sociais como causa principal.
A revolução digital, que prometia uma educação mais dinâmica e acessível, está gerando um efeito colateral grave: uma queda alarmante na capacidade de jovens e adultos em habilidades básicas como leitura e matemática. Alertas da OCDE e do Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional) pintam um quadro global de retrocesso educacional, diretamente ligado ao uso excessivo e sem propósito de celulares e computadores.
Queda livre no aprendizado, alarme global
O último relatório PISA da OCDE, que mede o desempenho de estudantes, revela uma queda histórica. Entre 2018 e 2022, a nota média em matemática despencou 15 pontos – o que equivale a perder quase um semestre inteiro de estudos. Em leitura, a queda foi de 10 pontos.
A pandemia piorou a situação, mas a tendência de declínio já existia. O grande vilão, segundo os analistas, é a “epidemia de distração”. Alunos que passam mais de uma hora por dia em redes sociais ou navegando sem rumo na internet chegam a ter 20 pontos a menos que colegas menos conectados.
Brasil: conectado, mas sem entender
No Brasil, a situação é ainda mais crítica. O Inaf 2024-2025 mostra que apenas 1 em cada 10 brasileiros é plenamente capaz de entender e usar informações complexas em leitura e matemática.
Surge um paradoxo perigoso: as pessoas estão mais tempo online, mas menos preparadas para o mundo. Quase 30% da população é analfabeta funcional. Para esse grupo, tarefas digitais simples – como preencher um formulário online ou identificar uma fake news – se tornam obstáculos intransponíveis, limitando oportunidades de trabalho e cidadania.
Por que as telas estão prejudicando a mente?
Especialistas em educação e neurociência explicam o fenômeno:
- Cérebro em modo “TikTok”: O consumo frenético de vídeos curtos e feeds de rede social reduz a capacidade de concentração sustentada, essencial para resolver uma equação ou ler um capítulo de livro.
- A morte do livro: O número de “não leitores” no Brasil chegou a 53%. A leitura profunda, que exercita a interpretação, está sendo trocada pelo consumo passivo de conteúdo rápido nas telas.
- Noite em claro, mente no escuro: O uso abusivo à noite atrapalha o sono e aumenta a ansiedade, prejudicando funções cerebrais vitais para a memória e o raciocínio lógico.
Contra-ataque, um movimento pela desconexão
Diante dos dados assustadores, alguns países estão revendo o lugar da tecnologia na sala de aula. A Suécia e os Países Baixos estão reduzindo investimentos em digitalização e retornando aos livros didáticos impressos, para reforçar a base dos alunos.
No Brasil, o debate sobre proibir celulares nas escolas ganhou força e já virou lei em vários estados, uma tentativa de recuperar o foco e frear a queda nos índices de aprendizagem.
A conclusão dos estudos é clara: sem um uso crítico e mediado da tecnologia, e sem políticas públicas que priorizem o pensamento profundo, o mundo digital pode se tornar o maior inimigo do desenvolvimento das novas gerações.



